Pelo caminho, fui conversando naturalmente com Tieza, sem dar nenhum motivo para alarmar a garota. Assim que eu parasse o carro, dentro da privacidade de "quatro portas", seria a hora perfeita para outra tentativa. Catzu havia colocado bons bancos de couro no Passatão, justamente para melhor desfrutar desses momentos.
Parei o carro em frente a sua casa. Enquanto eu puxava o freio de mão para depois desligar o motor, nos centésimos de segundos desse intervalo, Tieza abre a porta do carro, se despede e evapora para dentro de sua casa. Mas foi tão rápido que eu mal tive tempo de assimilar que ela tinha saído do carro, não houve tempo de nenhuma reação que a fizesse permanecer comigo por mais alguns minutos. Mas que infortúnio, apaixonei-me pelo Mestre dos Magos em sua versão Gisele Bündchen, ou melhor, Jodie Foster.
Tomei meu rumo então. Logo depois de a deixar, enquanto minha ficha caia, luzes e uma sirene soa atrás de mim. Sim, era a polícia: Mão na cabeça e encosta no carro! A minha grande sorte é que Catzu, mesmo bêbado, se lembrou de me dar o documento do carro, senão minha sina teria sido muito pior que algumas indesejadas apalpadas.
Tudo certo, a polícia foi embora. Nada de bafômetro, nada de guincho. Dos males o menor. Entrei no carro e tive mais uma surpresa: a lata-velha não queria pegar nem a pau. Quando percebi, havia esquecido o farol aceso durante a batida. Injetei gasolina e nada. Mas novamente a sorte me sorriu, um sorriso cínico e amarelo, mas sorriu. Eu estava em uma leve descida, e bóra empurrar o carro. Confesso que empurrar o carro e correr pra dentro dele para dar a partida é algo bem inusitado e emocionante de uma maneira pouco agradável.
Primeira tentativa: Nada.
Segunda tentativa: NADA.
A descida já estava para acabar, essa seria a terceira e última, mas dessa vez a caranga pegou . Senti-me como naqueles filmes, que o motor do avião pára em pleno vôo e quando o fim está próximo ele volta a funcionar. Finalmente pude voltar pra festa. Ufa!
Chegando de volta, vejo a polícia parada bem na frente da casa, mas ela já estava de saída. Quando novamente adentro o local, sou informado que os vizinhos estavam reclamando do barulho e que todos deviam ir embora. E assim se fez.
De volta para o MSN, vergonhosamente bancando o arroz, sazon, amigo cabeleireiro , chamem como quiser. Havia sido divulgado que haveria um Aerosmith na semana seguinte, e já com antecedência convidei Tieza. Seria uma outra boa oportunidade para as minhas intenções: todas aquelas baladinhas e provavelmente ela iria sozinha, pois suas amigas não curtiam Rock, assim como Tieza também não.
No dia do Aerosmith, lá vem Tieza com a enrolação:
- Don, então, vou ter que ver umas amigas que não vejo há tempos hoje, vamos lá no bar amanhã pode ser?
- Não, não pode! Mas ela não acatou às minhas insistências e o plano de cantar Angel em seu ouvido foi pro beleléu.
Comecei a duvidar se na verdade, eu que era o masoquista da história, e não ela, a sádica. Conversando com alguns amigos, me mostraram alguns fatos que me fizeram refletir melhor e assim descobri o verdadeiro motivo da minha paixão por Tieza. Não eram suas provocações que me abalavam, nem a fantasia do menage, muito menos sua beleza, pois garotas lindas como ela existem aos montes por aí. O que me obcecava em Tieza era justamente o fato de não poder tê-la. Uma garota que em circunstâncias normais seria difícil de se ganhar, lésbica então, eleve essa dificuldade ao cubo. Conquistar Tieza seria a minha superação, ou melhor, seria a consagração do meu poder de sedução, onde nem lésbicas angelicais resistiriam a mim. Nada mais era que um desafio, uma cruzada em busca da minha realização pessoal, que caso vencesse, eu poderia me vangloriar de ter feito o impossível. E essa glória nunca esteve tão perto, já que Tieza estava a jogar comigo e no mínimo me dava esperanças, fato inédito para mim com uma garota desse naipe.
Acabei então indo no reggae do dia seguinte, acompanhado de Terere. Quando adentro o bar, logo dou de cara com Tieza. Ela vem e me dá dois beijos no rosto, quase batendo na trave dos meus lábios (aqui em SP a regra é só um). Por um momento, tive a sensação de que ela me beijaria uma terceira vez, desta vez na boca, para completar a seqüência, mas foi apenas fruto da minha imaginação.
Fiquei lá como um bobo fazendo minhas graças para chamar sua atenção, mas estava difícil competir com mais 5 amigas lésbicas. Me encostei no bar próximo a ela, onde poderia a ver e ser visto, porém sem desgastar minha imagem. Ora ou outra, ela vinha e fazia seu charme. Até Terere quis entrar na brincadeira e estava lá dando em cima de uma das amigas.
Numa hora que ela se sentou e estava mais distraída, aproveitei a deixa e fui lá com o meu blá blá blá:
- Deixa eu me esconder com você. A minha ex está aí. ( De fato, estava, mas era uma mera desculpa)
- Ah é? Quem é? Perguntou Tieza.
- Uma loira de olhos azuis, está lá na frente.
- Que coisa. A minha ex também veio hoje.
- Ah é? Quem é? Agora foi a minha vez de perguntar.
- Aquela menina de preto ali.
- Mas essa menina não estava junto de vocês agora há pouco?
- Sim, então, a gente está meio que voltando.
Ouvir isso foi como tomar um tapa na cara. Mas ainda não estava que certo de que Tieza falava a verdade, poderia ser mais um blefe, e continuei meu blá blá blá agora fazendo um drama “ Você me trocou por ela? Como teve coragem?”
Na verdade, eu não queria acreditar, eu não conseguia acreditar, aquilo não entrava na minha cabeça de forma alguma. Algum tempo depois vejo as duas de mãos dadas, meio que abraçadas. A presença de sua namorada não impedia Tieza de me provocar, toda vez que passava por mim ela fazia uma carícia ( com certeza ela notou minha aflição naquela cadeira) ou mandava um beijo ou algo parecido. Terere veio me questionar:
- O que foi, cara? O que você tem? Parece que está nervoso.
- Adivinha o porquê?
- Tieza?
- Ela mesma. Lésbica do inferno!
- Mas o que aconteceu?
- A namorada dela está aí. Agora a vaca foi pro brejo.
Terere aproveitou para rir da minha cara e continou:
- Eu gostei daquela magrinha de preto. Sabe quem ela é?
- Quem ela é? Ela é... Ela é... ELA É A NAMORADA DA TIEZA! PQP!
- Aonde esse mundo vai parar? Exclamou Terere, assustado. – Daqui alguns anos não vai mais ter mulher hetero nesse mundo.
Tentei ir atrás de outra menina para não perder a noite, mas eu estava nervoso demais para ser simpático e conversar com alguém. Logo depois, vejo Tieza e sua namorada pagando a conta:
- Mas vocês já vão embora?
- Vamos sim, dá um beijo aqui. Tchau.
De longe, fiquei apenas assistindo as duas atravessarem o bar, cruzar a portaria e sumir para a rua. Juro que quase escorreu uma lágrima ao ver aquela triste cena, de duas garotas lindas irem embora se divertir sozinhas.
A culpa é dela!